Já
se passaram quatro anos desde que olhei pela última vez para os portões de
Eastroot e ainda não é o momento de voltar para casa, a desejo de meu pai Erus
Neomedes e meu também, sai de casa para estudar, estou em Sutherland, no
Castelo dos médicos como é chamado. Aqui os maiores médicos de todo Oriente se
internam para estudar.
Curioso
é fato desse castelo, apesar de hoje sem um bem quase que irrecuperável, são
terras de minha família e são vários os Neomedes que sentaram-se à mesa
diretora desta escola, bem mais que a metade eu diria, mas não é um sonho que
almejo. Gosto de explorar, de viver e me sinto preso aqui. As áreas do castelo
são enormes, há muito do que se ver ou fazer aqui, mas, nunca é o bastante. A
justa até que é interessante, mas não me fascina.
Como
sempre, meu esporte é sair a noite para “farriar” na cidade próxima, a várias
coisas e se ver lá e minhas andanças sempre são lucrativas. Porém, não é toda
noite que consigo sair sem ser percebido, e esta noite, por exemplo, não
consegui tal faceta. As tochas acesas e a ponte baixa indicam claramente que
notaram minha saída.
Os
guardas do castelo parecem me ver de longe e agora não há mais tempo para
recuar, pois, eles já caminham em minha direção:
–
Novamente saindo a noite Philips. – disse-me um dos guardas
–
Não existe muita coisa a me distrair aqui dentro, sabes do que estou falando.
–
Mas sabes também que não é permitido a nenhum aluno sair do castelo depois do
toque de recolher.
–
Eu sai sim, mas dessa vez juro que a causa era nobre.
–
A causa nunca será boa quando uma ordem for descumprida – retrucou o guarda.
–
Acredite, não estou blefando desta vez, existia uma pessoa muito doente na
cidade próxima e como bom homem que sou fui a seu encontro para ajuda-la.
–
Deverias ter chamado um médico, ainda não tem permissão de atender ninguém sem
supervisão.
–
Mas sabes que tenho talento, até mais do que muitos professores que temos aqui.
–
Isso é irrelevante para mim
O
outro guarda, sem muitas palavras, praticamente me tira de cima de meu cavalo
dizendo apenas que o diretor quer ver-me, não deve ser coisa boa afinal, a
noite já caíra a muito tempo e geralmente e apenas me dá os seus velhos
esporros pela manhã. Sempre a mesma balela, esse povo prega sempre a ajuda ao
próximo e quando saio a noite pra cuidar de uma dama indefesa eu sou punido,
que injustiça.
Eu
classificaria como extremamente desconfortável mais uma visita a sala do
diretor, precipuamente pela mão do guarda nas minhas costas me empurrando para
eu apertar o passo, são 20 minutos de caminhada quase, estou cansado da noite e
não entendo para que toda essa pressa. A torre do diretor é uma coisa
espetacular para quem a vista pela primeira vez, já não vejo mais graça na
centésima, mas, tudo bem, é uma torre em espiral bem alta, decorada com livros
que eu faria melhor uso e quadros dos antigos diretores, em sua maioria, meus
parentes, como já havia dito. Além do grande coelho esculpido em pedra que fica
em cima da cadeira do diretor, o coelho é símbolo da minha família e pela
ligação, também é o símbolo desde castelo.
–
Mais uma vez descumprindo uma ordem direta que existe há tanto tempo quanto
esta casa Philips
–
Senhor, eu só sai do castelo a noite, pois estou aqui a quatro anos e já não
tenho mais o que fazer. – eu digo disfarçando risadas
–
É Claro que há o que fazer, você tem que estudar esta aqui para isso. Philips
sabe que seu tempo aqui agora já é curto e você, quando voltar para casa, será
o medico principal da cidade, irá tomar com facilidade o posto do seu pai que
já caminha para uma idade de descanso. Diga-me é esse o respeito e a forma que
você tem de zelar pelo nome de sua família?
–
Senhor. – eu digo já um pouco sem desconfortável. - eu sai da cidade para ajudar uma pessoa.
–
Isso não ajuda em nada sua situação, pelo contrario, piora, sabes que nenhum
aluno pode prestar atendimento sem orientação superior. Já são duas
transgressões gravíssimas.
–
Mas se um médico fosse faria falta aqui, eu tenho capacidade suficiente para
atender alguém.
–
Philips eu não serei enganado por um aluno reincidente igual a você, não há
médicos em campanha, a essa hora da noite nenhum faria falta.
–
Por isso também eu fui, estavam descansando e não queria incomodar.
–
Tudo bem então, sabe que tenho muita afeição por seu pai e por isso nunca tomei
nenhuma atitude mais extrema sobre sua disciplina, mas não posso tolerar isso
mais uma vez.
O
Diretor dá dois fortes socos em sua mesa para chamar atenção dos guardas que
prontamente entram em sua sala.
–
Acalme-se meu senhor. – eu digo. – Talvez, se o Senhor, me desse acesso a esses
livros em sua sala que nenhum aluno tem acesso eu poderia não precisar sair à
noite do castelo para me distrair.
–
Você não se mostra nenhum um pouco merecedor, você. – ele diz apontando para um
dos guardas. – Leve-o para o calabouço, ele ficará por um tempo lá até aprender
de verdade a ser um homem.
–
Como? – Eu digo, até um pouco assustado, nunca, que eu saiba um aluno foi para
o calabouço do castelo, isso não é usado a centenas de anos.
–
Vamos – um dos guardas diz já segurando o meu braço.
–
Triste isso, agora que eu me mostro interessado em aprender de verdade eu sou
punido com o calabouço.
–
Levem-no.
–
Mas isso é muita injusti...
–
Levem-no logo daqui – diz o diretor já um pouco alterado.
–
Esta vendo... eu tento começar a dizer mas sou interrompido.
–
Não fale comigo pivete, não sou de uma estirpe.
–
Claro, até porque se você fosse...
–
Ande e calado!
Demoramos
aproximadamente vinte e cinco minutos até chegarmos na entrada do calabouço,
uma escuridão profunda domina o salão, apenas visualizo uma escada em espiral descendo
cada vez mais para a escuridão, um dos guardas incendeia uma tocha para que
possamos visualizar o que há na direção de nossos pés, são mais cinco minutos
apenas descendo a escada em espiral a poeira que cerva os degraus confirma a
cada passo minha teoria, esse lugar não é usado a centenas de anos. A fim da
escada me é revelado um corredor ao qual não consigo visualizar o seu fim, com
total brutalidade o guarda me entrega a tocha e atira ao chão um cobertor
deveras sujo e diz com um sorriso descomunal na face:
–
Escolha seus aposentos.
O
guarda começa a subir as escadas e rapidamente eu o perco de vista, ouço por um
tempo o seu andar, da bota de ferro batendo sobre a rocha ao qual foi esculpida
a escada, e no fim, o bater de uma grade, estou trancado. Com um suspiro de
esperança eu subo as escadas para saber se há escapatória, assim poderia dormir
na minha cama e voltar apenas ao amanhecer, no fim das escadas eu apenas
encontro o mesmo guarda, olhando para mim com o mesmo sorriso e mexendo a
cabeça negativamente.
–
Você não tem família não guarda, vá repousar!
–
Não, não tenho. E meu nome é Vsevolod, e não guarda, agora desça, seu lugar não
é nas escadas.
–
Disseste-me que eu poderia escolher meus “aposentos”
–
E se não escolher eu escolherei por você. Agora desça.
–
Me lembrarei disso caso você fique doente um dia.
–
Quanto tempo o velho Przemysł falou que eu tenho que ficar aqui mesmo?
–
Se dirija com respeito ao diretor seu pivete insolente, e ele não disse. Agora
desça, eu já estou perdendo a paciência. – Diz Vsevolod descansando a mão na bainha
da espada.
Novamente
no corredor onde estão as celas, eu escolho apenas a primeira que eu vejo e me
acomodo, o incrível estado de nada para fazer apenas me favorece a lembrar de algumas
combinações herbóreas. A Hora parece não passar, não sei se estou aqui por uma
hora ou duas, talvez três, o sono bate na grade da cela e eu apenas sorrio para
ele e durmo.
Um barulho me faz despertar, não sei o que é
mas parece uma voz de um homem praguejando alguma coisa, será que agora é
habito prender alunos aqui e me trouxeram companhia? Eu me levanto e começo a
seguir a voz.
–
Quem esta ai? – pergunto eu seu obter resposta.
Como
um movimento de coragem eu tiro a tocha da parede e caminho para o fim do
corredor, andando e observando as celas que se estendem pelo local, vejo apenas
celas e celas vazias e nenhum sinal de quem alguém tem passado e isso me deixa
um pouco esmorecido. Um banheiro é revelado no meio de duas celas, nojento. Um
ou outro ratos passam assustados correndo em direção ao grande buraco que tem
no banheiro, provavelmente com medo da tocha que empunho. Chegando as duas
ultimas celas uma surpresa nada agradável me espera, há duas ossadas completas
nas celas, na cela a esquerda uma pessoa sentada ao chão e na da direita uma
deitada na cama de pedra que há em toda cela.
–
Senhor, se esses foram os últimos alunos que passaram por aqui estou em apuros.
Eu
entro na cela da esquerda, a curiosidade médica me permite tentar saber qual
foi a causa da morte. Acredito que esta ossada pertence a uma mulher, uma túnica
rasgada envolve parte do corpo, mas esta muito destruída parece que esta sendo rasgado
pelos ratos a pelo menos uns 50 anos, me aproximando um pouco mais percebo um
anel em sua mão e um diário em baixo de seu joelho. O anel é dourado, aparenta
ser um anel nobre, de ouro, dentro há uma inscrição, um nome: Enriqueta. A pedra
amarela no centro do anel reflete minha imagem, mas cada vez eu a olho me sinto
observado. Olhando melhor para o anel percebo um pequeno símbolo, uma águia em
um combate com uma serpente, aparenta ser algum símbolo de família.
Removo
o diário com cuidado para não desfazer o corpo e me sento na cama ao lado de
Enriqueta, pelo menos de acordo com o anel é assim que ela se chama. Permito-me
ler por algumas horas aquele diário, afinal, não tenho que fazer. No diário de
Enriqueta ela conta quem ela é, diz que é uma princesa e pela descrição das
terras dela deve ser um tanto quanto longe daqui, ela dizia que estava enferma,
segundo a descrição dela ela apenas acordava a marrada em alguma cama e
contavam pra ela coisas que ela disse não fazer, acredito eu, segundo seus próprios
relatos que ela perdia a memoria e sem saber quem ela era Enriqueta se tornava
agressiva, e em um desses ataques assassinara o seu próprio pai. Depois disso
ela foi enviada para este castelo para se tratar, mas parece que em um ataque
que ela teve jogaram a coitada nessa cela também. Ao chegar aqui ela viu o
corpo do homem que esta na cela da frente, pensou que iam deixar ela aqui até
morrer, se é que não iam fazer isso mesmo, e a coitada resolveu acabar com o sofrimento
dela. Agora consigo enxergar, existe uma pequena pena de ferro localizada na
região da garganta no esqueleto, deve ter sido uma morte bem dolorosa, mas pelo
menos agora eu sei como ela escreveu aquele diário.
Deixo
o corpo de Enriqueta e vou em direção ao outro corpo, aparenta ser um homem de
meia idade, deitado em posição fetal, este parece não haver nenhum pertence, percebo
que na parede da cela tem riscos, como um calendário improvisado, aparenta ter
uns 300 riscos e se esse é o tempo que um aluno passa aqui eu realmente estou
muito enrascado. As roupas estão apodrecendo e isso é claro, mas aparentemente
não tocaram nele pois a roupa ainda se mantem, aparentemente é um monge, quando
toco na roupa ela se desfaz e começa ela toda a virar uma grande nuvem de
poeira. Após a poeira abaixar é revelado a mim um cordão no pescoço do homem,
ao pegar o cordão uma nova surpresa, é um medalhão de prata, aparenta ser muito
antigo, no seu anverso existe o símbolo da igreja e do outro lado o símbolo da
cidade de Eastroot, minha cidade. Eu guardo o medalhão comigo.
Quando
saio da cela vejo uma cena um tanto quanto inusitada, pois, uma mulher sai de uma
sela e entra em outra, eu sigo ela no mesmo momento quase como um reflexo e
quando vou ver a cela que ela entrou nada há. Novamente eu ouço murmúrios e
dessa vez eu chamo um nome:
–
Enriqueta? – mas, não sou respondido.
Eu
sigo com cautela o som da voz, mas, dessa vez eu paro para ouvir o que a voz
falava, a voz era de um homem e estranhamente os murmúrios, agora que escuto
com clareza, se tornaram uma prece, que dizia: Angele Dei, qui custos es mei,
me, tibi commíssum pietáte supérna, illúmina, custódi, rege et gubérna. Amen.
Ainda
me lembro desta oração nas minhas vistas a igreja, ela diz: Santo Anjo do
Senhor, meu zeloso e guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me
rege, me guarde governe, ilumine. Amém.
Eu
finalmente entro na cela, quase que como para pegar alguém de surpresa, mas a
voz cessa, quando finalmente concluso que estou louco eu me viro em direção a
outra cela, e vejo uma olha olhando em minha direção, parada, de olhos vazios,
sem expressão e sem vida, apenas me observando. Estranhamente ela não me
assusta.
–
Enriqueta? – mas uma vez, sem resposta. – Porque não fala comigo Enriqueta?
–
E Porque eu faria, as pessoas nesse castelo me mataram.
–
Bom, se você me disser o que aconteceu eu talvez possa entender e te ajudar.
–
Você já sabe o que aconteceu. – ele me diz apontando para o diário dela em
minha mão.
Eu
abro o diário novamente e digo: – Sim eu li alguma coisa aqui, mas acho que você
contando eu poderia entender melhor. Quando olho novamente em direção a ela,
vejo apenas o nada. Ela não estava mais ali.







